A primeira hora de voo…

Ah, a primeira hora de voo a gente nunca esquece. Os preparativos para ela, tambem não.

Por Araujo.

No dia 11 de Dezembro do corrente mêss, decolamos de Congonhas rumo ao Santos Dumont. A aeronave era um Airbus A319 da Avianca. A despedida dos pais foi calorosa. Sem lagrimas. O voo foi excelente, decolagem de foguete, cruzeiro de airbus. O pouso foi feito pela pista 20L. Se bem que foi mais um catrapo que um pouso, mas, em se tratando de Santos Dumont, 1323 metros de comprimento e 42 metros de largura, tinha mais é que ser mesmo. Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, coração do meu Brasil.

Assim que a aeronave parou completamente, corri e fui pegar minha mochila que eu havia deixado no compartimento superior. Ela havia sumido. Alguem a havia pegado. Foi um corre-corre-corre pelo saguão, um desespero e… eu consegui localizar minha mochila, que tinha minha carteira e CCF em seu interior. Alguem supostamente a havia pego por engano e, um outro alguem a estava… carregando para sua respectiva casa. Pedi minha mochila de volta e retornei ao encontro de um outro amigo. Nada foi levado.

A viagem havia começado com todas as emoções possiveis. Um pouso no Santos Dumont, um furto de mochila… seja bem vindo ao Rio de Janeiro. Fui recepcionado por meu tio Elmiro e por meu primo André, que me levou para sua casa, onde me encontrei com minha tia Talita. Apos abracos de boas vindas, tivemos um almoço agradabilissimo, preparado por minha tia. Logo apos comermos, fomos fazer um tour pela cidade do Rio de Janeiro. Devo confessar, fiquei maravilhado com aqui! A cidade é linda, o Rio é perfeito! Fizemos questao de passar por dentro de algumas comunidades recem ocupadas pela policia e, aparentemente, a paz voltou a reinar.

Retornamos a casa do meu tio. Descansamos algumas horas e, logo de noite fomos para a Igreja. O culto foi excelente. Ouvimos um coral que entoou musicas natalinas de maneira incrivel. Saindo da Igreja, nos dirigimos a uma pizzaria onde jantamos com meu tio e pudemos conversar bastante. Retornando a casa dele, nos aconchegamos em nossos aposentos e nos preparamos para o dia seguite, que comecaria um pouco tarde.

Dez horas da manha do dia 12 de Dezembro. Acordamos, nos arrumamos, tomamos um belo cafe, nos despedimos dos meus tios e tomamos o onibus para Maricá. Apos 50 minutos de viagem, chegamos a QNE. Fizemos nossa matricula e ja recebemos nosso material de estudos: um MGO, uma WAC do Rio, uma Checklist e outros tantos manuais. Teríamos uma prova teórica em menos de 2 horas. Eram quase 130 paginas de estudos.

Ainda bem que eu leio rápido. E ainda bem mesmo. Li cada pagina com atenção, marquei o que era importante e revisei. Em duas horas nos apresentamos para a prova inicial do Cessna 152. Coisas basicas como nome do motor, potencia, velocidades, limites e procedimentos padrao foram cobrados. Tiramos 9 no teste, errando somente duas questoes. Sim, até daria para melhorar, mas considerando que tivemos pouco tempo para estudar, fomos muito bem.

Saindo da prova, fomos introduzidos aos procedimentos gerais da escola e tambem, fomos introduzidos ao avião. Aprendemos o procedimento correto da inspecao externa, quais itens deveriamos verificar e o que deveriamos fazer em caso de encontrar algum problema. Entendemos quais eram os procedimentos de preparação da cabine para o voo, bem como a aplicação e o uso das checklists e, tambem, acionamos o motor, iniciamos taxi, fizemos check de mistura e magnetos, check de potencia estática, e afins. Logo de cara, eu fui o responsavel pelo taxi. Foi muito tranquilo, mais facil do que eu imaginei. Taxiei na faixa, nos conformes. Ingressamos na pista em uso, fizemos o backtrack e… paramos alinhados. Uma vez la, checamos novamente o motor e, por aquele dia, terminamos nosso Groundschool. Voltamos ao estacionamento, fizemos todos os checks e, estavamos liberados oficialmente.

Já estávamos na escola de aviação, ja tinhamos feito a prova inicial, ja conheciamos a aeronave e o grounschool já havia sido feito. So faltava… voar!

Sobre meu primeiro voo, falarei amanha. Sim, isso é so para deixar vocês curiosos e aflitos.

O Certificado de Capacidade Física

Olá caros leitores. Estava com saudades de lhes escrever. Peço perdão pelo tempo que fiquei ausente. O último mês foi bastante corrido para mim, afinal de contas, final de semestre na faculdade de aviação somado com preparativos para voar é sempre complicado. Peço perdão também ao nosso Editor Chefe, João Vitor Balduíno! Creio que o que virá a ser postado nos próximos dias retribuirá minha ausência de maneira… digamos… espetacular! Vamos ao que interessa, o Certificado de Capacidade Física.

Por Araújo.

Todo piloto teve, tem ou terá receio de tirar essa carteira necessária. Todo piloto teve, tem ou terá algum problema com o CCF. Não, eu não sou vidente. Sou piloto. O Certificado de Capacidade Física é, sem dúvida, o documento necessário para o voo que mais preocupa os aeronautas de todo o Brasil. Para tirá-lo, você precisa estar com a saúde física, mental e emocional em dia, mas… e se os exames forem feitos num dia em que você não está bem? O que pode acontecer? E se aparecer algum problema físico, o que me acontece?

O Certificado de Capacidade Física, vulgo CCF, é um documento que custa na faixa de 350 reais (inicial) expedido pela Agência Nacional de Aviação Civil e tem por objetivo certificar que o aeronavegante tem a capacidade física para exercer atividades a bordo de aeronaves civis brasileiras. Há um Regulamento Brasileiro de Aviação Civil (RBAC) que trata somente dos requisitos mínimos para a obtenção do CCF. Tal RBAC foi completamente lido por mim por pelo menos cinco vezes, tal era minha preocupação. Para os que querem saber mais, vou deixar logo abaixo o link para acesso ao RBAC 67:

http://www2.anac.gov.br/arquivos/pdf/audiencia/Anexoresolucao67.pdf

Tenho que confessar, o maior medo sempre foi não poder voar por algum motivo. Quando pequeno, passei por quatro cirurgias. Depois de crescido, estourei um ligamento do joelho. Fazia alguns bons anos que eu não praticava atividades físicas. Virei um sedentário, como diz o manual do piloto. Somada aos quadros de doenças cardíacas familiares desenvolvi uma neurose que fez com que eu tivesse um medo absurdo e irracional de medir pressão arterial, mesmo eu não tendo problema algum de saúde, seja ele cardíaco ou não.

Desde os meus 12 anos tenho me preocupado com o meu CCF. Quando entrei na faculdade de aviação e vi que eu precisava tirá-lo definitivamente, a coisa ficou um pouco pior. A ansiedade bateu lá em cima, o medo se intensificou e… eu pensei que eu não teria condições de ser piloto por não saber controlar a minha própria ansiedade frente a um grande desafio.

Resolvi marcar meu exame. Procurei os locais de inspeção na cidade de São Paulo e logo me deparei com o HASP (Hospital de Aeronáutica de São Paulo). Como tudo que é público, por assim dizer, no HASP há uma fila de espera. O problema era que tal fila tinha 3 meses de espera. E eu não tinha esse tempo. Resolvi procurar clínicas particulares para a inspeção. Encontrei a Clínica La Vue, recomendada por um amigo meu. Logo descobri que eu precisaria fazer todos os exames por conta própria e, no dia da inspeção, eu deveria levá-los para que fossem analisados.

Já estava decidido, eu faria meu CCF inicial em clínica particular. Marquei uma consulta com o médico da família e, solicitei todos os exames necessários, que é Raio X Tórax, Raio X de Seios da Face, Panorâmica Oral, E.E.G Eletroencefalograma com laudo, E.C.G Eletrocardiograma com laudo, além de alguns exames laboratoriais, tais como Hemograma completo, Plaquetas, Glicose, Colesterol Total, Colesterol HDL, Uréia, Creatinina, Triglicerides, Acido Úrico, Tipo Sangüino, Fator Rh., VDRL e Urina I com Sedimentoscopia.

Como fiz pelo convênio médico, não tive custos para os exames, somente para a emissão do CCF, que me custou exatos 350 reais. Em três semanas estava pronto para ir para a minha inspeção. Liguei na Clínica La Vue, marquei a data e lá compareci.

No local, tive que preencher um calhamaço de questionários, fiz um exame dentário, exames gerais de visão, medi a pressão e fiz a consulta com um psiquiatra. Foi tudo tranquilo, sem problemas. Consegui controlar a minha ansiedade, agi com calma, elegância e tranquilidade, conseguindo obter meu CCF de Segunda Classe.

Para você que tem o sonho de voar, mas que tem medo do tal do CCF… eu só tenho uma dica: Haja com calma, elegância e tranquilidade que tudo dará certo. Para conseguir minha carteira, passei por diversas dificuldades que resolvi ocultar ao escrever este artigo. Talvez eu as escreva em um outro, mas, o que tive que superar para conseguir meu CCF foi minha própria mente, meu próprio emocional, controlando o nervosismo e a ansiedade.

Nada pode parar o sonho de quem nasceu para voar. Sem mais.