Dignidade, Ética e uma paulada na cara.

Caros Leitores,

Eu não sei de algumas coisas. Uma delas é se eu já esperava escrever esse post, mas não tão cedo e a outra é ter que escrever com dor no coração de uma maneira ou outra.

Por João Vítor Balduino

Acredito que todos, senão a maioria, recebeu a notícia do encerramento das operações da Webjet como uma paulada na cara. E não, não achei termo melhor. Então, antes de colocar aqui meus argumentos, deixo claro: As opiniões aqui colocadas são única e exclusivamente alusivas ao pensamento do autor. Pode ser que você concorde, pode ser que não… Enfim. Lá vamos nós.

Foto: Lucas Ricarte | 2012

Foto: Lucas Ricarte | 2012

A fusão entre companhias aéreas nunca muitas vezes não é vista com bons olhos, tanto pelos usuário do transporte, quanto pelos colaboradores das companhias envolvidas e analistas (Só os responsáveis, e não aqueles que o SBT chama para falar abobrinha na TV). Não precisa ser ingênuo para saber que grandes fusões vão gerar impactos econômicos e, por obséquio, demissões em massa. Inclusive, isso foi um tópico MUITO comentado quando a GOL oficializou a compra da Webjet. Claro, no esquema “Oito ou Oitenta”, a esperança nunca faltou. A possível luz no fim do túnel apareceu quando a GOL, e também a Webjet, anunciaram uma ambiciosa renovação de frota, retirando gradualmente os já cansados e gastões (Porém não menos eficientes) Boeing 737-300 e introduzindo os novos Boeing 737-800NG, oriundos da frota da própria GOL. Os mais otimistas diziam que, ao todo, seriam cerca de 30 aeronaves para a irmã menor e esverdeada. É claro que isso deu um “up” no time de colaboradores da companhia, que sequer imaginavam que o destino da empresa já estava, desde o princípio, selado, registrado e carimbado.

Foto: Fernando Canteras | 2012

Foto: Fernando Canteras | 2012

Eu não condeno a absorção da Webjet pela GOL. Até porque, no caso de grandes fusões, é natural que o “tubarão” (GOL) engula o menor (Webjet). O que mais gerou raiva ontem e hoje (E comigo o sentimento não foi outro) foi a maneira com a qual as coisas foram conduzidas. Uma atrocidade sem tamanho, uma falta de respeito sem precedentes. Confesso, ainda, que ando com meu rabo preso com atitudes da GOL desde o programa de demissão em massa para redução de custos que houve recentemente. Nos dois casos, amigos foram demitidos e pude (E estou) acompanhando de perto esse doloroso processo. O atual presidente da GOL, Paulo Sérgio Kakinoff, em uma distinta entrevista para a Folha de São Paulo, ressaltou (Para não dizer que jurou de pé junto) que não haveriam demissões nessa “fusão”. Preciso dizer que isso foi uma grande mentira e falta de respeito? Claro que não. O que aconteceu hoje responde por mim.

A sensação de acordar e não saber pra onde ir é desesperadora. Não passei por isso ainda, mas no meu ambiente familiar isso já aconteceu várias e várias vezes. Acordar e ver seu pai sem poder fazer nada, sem poder reverter a situação, sem saber quando o mercado de trabalho irá acolhe-lo novamente… Não, não é uma situação confortável. Não é algo que desejo nem para meu pior inimigo (Até porque não tenho nenhum). Agora pegue uma situação desta e multiplique por 850. É justamente isso que os seres humanos, trabalhadores, colaboradores, aviadores, aeronautas e apaixonados pelo o que faziam vão acordar pensando amanhã. Pessimismo meu? Não. A aviação brasileira não vive um momento tão bom como há uns dois anos atrás. Mas, quem sou eu para traçar panorama de aviação? Agora não é hora para isso.

Fico tentando imaginar se a diretoria da GOL e os principais responsáveis por isso conseguem colocar suas respectivas cabeças no travesseiro e dormirem tranquilas. Não tenho absolutamente nada contra eles, mas enquanto um anda de Audi A7 de 400 mil reais, uns estão desempregados. Foi, realmente, antiético prometer emprego e da noite pro dia apunhalar pelas costas os que acreditaram em um futuro promissor para a empresa que davam o sangue? Se você acha que estou exagerando… Não. Não estou. Vivi momentos excepcionais naqueles 737 apertadinhos. Por que não? Uma tripulação fantástica que em todos os momentos me recebeu com sorrisos a bordo. “Bom dia, Senhor”. Ao ser recebido no cockpit? Já cheguei a me despedir dando abraços em ambos os pilotos, trocando contatos e combinando algum encontro futuro. Inclusive, conversei com o co-piloto deste voo via Skype e ouvi-lo chorar não foi NADA agradável. Novamente: Multiplique isso por OITOCENTOS E CINQUENTA.

Foto: Juliano Damásio | AIRFLN (www.airfln.com.br)

Foto: Juliano Damásio | AIRFLN (www.airfln.com.br)

Espero, do fundo do coração, que a recolocação no mercado de trabalho dos trabalhadores da Webjet seja bastante rápida e eficaz. Que todos possam encontrar seu lugar ao sol, em céus brasileiros ou não. Que o mercado possa acolhe-los de braços abertos. Que a competência e a credibilidade de quem foi traído possa ser levada em conta. Que tal, um dia, eu encontrar mundo a fora um “Ex-Webjet” voando feliz? Torço muito por isso. Fico aqui na expectativa. Na torcida. Sofro junto. Me alegro junto. Só quem vive e respira aviação consegue me entender.

De resto, espero que os cervejeiros, entendedores de carros de luxo e gestores de empresa de ônibus que hoje compõem a diretoria de uma companhia aérea possam voltar para seus tronos originais. Claro, antes que inocentes sejam enganados e antes que seja tarde demais.

Qualquer coisa, estou a disposição.

Um triste abraço.

Cenários e Fatos – A formação de aviadores no País.

Caros Leitores,

Aos que acompanham os mais variados veículos de comunicação (G1, UOL, Folha de SP, Telejornais), é notável que a quantidade de matérias relativas a aviação tem aumentado de maneira espantosa. Com certeza, é um ótimo assunto para ser abordado, ainda mais agora, um momento especial para nossa aviação que está vivendo um momento de subida acentuada, com mais gente viajando, mais aeronaves e mais destinos servidos. Mas, e quando o assunto tratado por estes veículos é a falta de pilotos? A falta de pilotos na aviação Brasileira é um tema real ou apenas jogada de marketing? E a formação de pilotos no país, como anda? Vamos entender um pouco mais disso a partir de agora.

Por João Vítor Balduino

Aeroclubes lotados. Dificuldade de marcar horas de vôo. Faculdades disputadíssimas. Estes são alguns dos inúmeros fatores enfrentados por jovens e adultos que desejam seguir carreira na aviação hoje em dia. A falta de pilotos é um dos temas que mais entram nas rodas de discussões em fóruns de aviação, em rodas de aeroclube, na mesa redonda da faculdade. Mas isso é real? Por enquanto, sim. As companhias aéreas brasileiras, bem como o mercado da aviação executiva, tem crescido muito no nosso país nos últimos anos. Isso é reflexo das facilidades atuais para quem quer tomar um avião e viajar. Facilidades de pagamento, vôos diretos, preços baixos, novos modelos e estilos de companhias aéreas tem surgido. Para transportar esse montante de gente que quer viajar, são necessárias aeronaves. E, para que essas aeronaves voem, além do trabalho de solo, abastecimento e outros “N” fatores, são necessárias peças-chaves para isto tudo: Os pilotos. Afinal, são eles que vão operar os aviões.

 

São eles que operam essas belas aves que cruzam nossos céus: Os pilotos. Sem eles, a aviação não decolaria, literalmente.

Em Ribeirão Preto, na escola de aviação Aces-High, o curso de piloto privado de aeronaves é um dos mais disputados do negócio, administrado por uma equipe de renomados profissionais da aviação, entre eles, comandantes de grandes companhias aéreas nacionais. Segundo Eugênio Rocha, piloto e um dos professores da escola, a Aces High começou há cerca de 1 ano e meio com apenas 8 alunos, e, atualmente, está com um espantoso e satisfatório número de alunos: 105. Isso apenas no curso de Piloto Privado. E, com as facilidades impostas pelas companhias aéreas na hora de admitir um piloto, 90% dos que se formam hoje em dia já tem colocação imediata no mercado de trabalho, o que era inimaginável há cerca de dez anos atrás, onde a quantidade de horas de vôo era levada muito mais em conta do que hoje em dia.

Para ingressar na Varig, as horas de voo pesavam, E MUITO, nos requisitos mínimos.

Para ingressar na Varig, as horas de voo pesavam, E MUITO, nos requisitos mínimos.

E não é só na escola de aviação que futuros aviadores tiram proveito de aulas que adoram: Várias faculdades brasileiras contam com renomados cursos voltados para o mercado da aviação. Um exemplo delas, se não o melhor exemplo, é a Faculdade Anhembi Morumbi, em São Paulo. O curso, procurado por quem deseja ser um piloto de linha aérea, conta com uma grade curricular que permite que o formando siga carreira em outras importantes áreas da aviação. Um exemplo de sucesso profissional é Guilherme Britto, diretor de rotas da Azul Linhas Aéreas. Formado na Anhembi Morumbi, com apenas 24 anos já ocupa um posto importante na sua carreira. Guilherme, que também é apaixonado por aviação, comentou este e outros fatores na EXPOAR, um evento da faculdade voltado para os futuros aeronautas/aviadores.

 

E as horas de vôo? Infelizmente, voar as horas necessárias para se tornar piloto não é barato. É preciso desembolsar, no mínimo, por cada hora de vôo, uma quantia de cerca de R$300, que varia de local para local, e também de acordo com o avião escolhido pelo aluno para voar. No Aeroboero, avião largamente utilizado para instrução de pilotos, a hora de vôo pode ser encontrada em alguns aeroclubes por cerca de R$200 (Aeroclube de Araraquara). Já em Ribeirão Preto, o preço da hora de vôo em uma outra aeronave, o Cessna 152, chega a exorbitantes R$370, no aeroclube. O que acontece muito durante a formação é o seguinte caso: O aluno começa seu PP teórico, termina, tira seu CCF e inicia as horas de vôo. Mas, infelizmente, uma pequena parcela desiste visto o alto valor das horas. No Brasil, onde a aviação mais cresce na América latina, não é possível entender que ainda não temos programas de incentivo aos que desejam se tornar aviador. Sim, caro leitor… Muitos querem, mas poucos podem. Essa é a realidade atual!

 

O Aeroboero.

O Aeroboero.

Ainda sobre o tema acima, a ANAC criou há cerca de dois anos um programa de bolsa de estudos voltado pra a formação de pilotos, mas graças a incomPTencia do nosso governo, não foi pra frente. E, como não podia deixar de ser, muitos bolsistas ficaram na mão, pois a ANAC deixou de subsidiar as horas de vôo. Infelizmente, enquanto um extremo da aviação está em plena prosperidade, o outro está entrando em decadência.

 

Ah, e tem a situação dos aeroclubes no Brasil ainda: Estão de mal a pior. Mas isso é assunto para o próximo post.

 

Um abraço,

João Vitor Balduino